orkut, minha primeira rede social chega ao seu fim

Minha primeira rede social chega ao seu fim. Deixo minha homenagem à rede que me deu amigos, risadas e scraps pra encher folhas de papel até a lua!

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Vida e Filme

Desde pequeno eu penso que sou vidente. Tenho uma incansável mania de tentar desvendar o futuro; uma pressa em querer estar certo, em querer ser o primeiro a dizer – “eu avisei”. Talvez venha daí a minha ansiedade. Meu combustível não acaba. Minha mente não descansa.

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Os Memes e a Guerra Política

Vivemos um marco histórico: somos a geração dos memes. Santinho é coisa do passado. A campanha política trocou o panfletinho de papel pelo arquivo de imagem, algo muito mais fácil de compartilhar (não molha, não amassa e ninguém joga na lixeira). Os memesnão procuram ressaltar dados econômicos relevantes e nem se preocupam com a melhoria dos índices sociais. Em vez disso, os memes fazem montagens ~engraçadas~ e spans caricatos com as mais diversas imagens. As pessoas adoram memes porque eles são legais. O problema é que o debate político também virou meme.

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Marcha Contra o Monopólio das Palavras

Ódio nos olhos, cartaz na mão e dinheiro na conta. Na boca, um empapado ácido de queixas vazias sobre o governo federal, sem qualquer tempero técnico que elevasse o nível de um possível debate político. Sobre as cabeças dos passantes, faixas condenavam programas sociais e pediam intervenção das Forças Armadas.
O cenário acima corresponde à Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que teve sua reprise no mês de março deste ano. O evento, semelhante ao primeiro, mas (felizmente) mal sucedido, protestava contra a “ameaça comunista”.
Eu fico cabreiro. Em um país onde os bancos lucram o que lucram, com a imprensa dominada pela elite e uma bancada parlamentar tomada por religiosos e ruralistas, onde é que se esconde o comunismo?

Com vocês, o conceito de “Ameaça”:“s.f. Palavra, ato, gesto pelos quais se exprime a vontade que se tem de fazer mal a alguém: discurso cheio de ameaças.Sinal, manifestação que leva a acreditar na possibilidade de ocorrer alguma coisa.”

Do jeito que a coisa anda, estou muito mais convencido de uma ameaça fascista. Uma classe média que grita o ódio, solicitando o fim de políticas sociais e uma intervenção militar que ponha fim à democracia, sem dúvida, é uma elite que ameaça. Por outro lado, não há ameaça quando uma classe explorada pede o que lhe é de direito, a sua quota constitucionalmente garantida – e isso não é comunismo, é só democracia.
A democracia é tão essencial ao corpo humano quanto beber dois litros de água por dia.
Mas tudo isso é óbvio, e não me ocuparei em explica-lo. Não me apetece convencer a senhora médica do Morumbi que votou no Alckmin, nem o Coronel Paulo Magalhães, assassino e torturador, que recebe 18 mil por mês de aposentadoria, tampouco o advogado leitor da Veja que reclama dos 140 reais (porra, 140, é tanto assim?) que o pobre recebe do Bolsa Família.
Não vou perder tempo com o óbvio, ele é absurdo por si só. O que quero é analisar o título da passeata em questão.
MARCHA DA FAMÍLIA COM DEUS PELA LIBERDADE
Acredito que todos nós sabemos o que é “Marcha”. É autoexplicativo. Podemos dizer que pessoas marcham quando caminham, quando dão passos a algum destino ou sentido. Mas não é aí que a coisa aperta. O primeiro problema aparece quando lemos “Família”, esse instituto que muda a cada dia, fática e juridicamente, abrindo margens para que a viúva lésbica que divide o quarto com seu papagaio de estimação seja tão família quanto o casal branco de homossexuais que adotou um menor abandonado. Ricardo, autor deste blog, pode explicar melhor do que eu.
Ocorre que: quando as pessoas se apropriam do termo “Família” para dar nome a uma marcha classista, excluem toda a abrangência mutante desta palavra. Num ato de egoísmo, tomam para si a propriedade do termo, regredindo a semântica, como se “Família” fosse apenas aquele casal heterossexual sem graça com dois filhos cristãos. Do jeito que usaram a palavra foi como se todos nós discordantes estivéssemos também marchando, uma vez que somos igualmente membros de alguma família. Mas quando uma coisa dessas acontece, eu não me sinto parte de nenhuma “Família”. A conotação da palavra muda de acordo com o emprego dela.
Marchemos, então, a “Deus” (sem trocadilho). Devemos lembrar que quem deu nome ao movimento foram os passantes de 1964, 50 anos atrás. Agora a pergunta: que Deus é esse que apoia a tortura e a repressão? Que Deus permitiria que as atrocidades vestidas de farda fossem praticadas em seu nome? Não vejo muita lógica.
A religião, nos seus entremeios e meandros, possui um calabouço onde residem os enganados: aquelas pessoas que praticam o mal justificando sua atitude pelo poder divino. É o homem-bomba que mata centenas, o pastor com sermões machistas, e por aí vai, ad infinitum. Da mesma maneira, como no emprego da palavra “Família”, a palavra “Deus” também se encontra desvirtuada, segregando sentidos, como se as pessoas que acreditam em Deus fossem apenas aquelas manifestantes de BMW e Louis Vuitton.
Podemos esmiuçar um pouco mais. No Cristianismo, religião preponderante dos passantes da Marcha, Deus ainda se ramifica em diversas formas. Percebemos um caráter vingativo, rígido e patriarca na figura divina do Antigo Testamento, contrastando com o Deus benevolente e piedoso depois do nascimento de Cristo. Daí que as pessoas daquela marcha fascista só podem crer no mesmo Deus que tacou fogo e enxofre em Sodoma e Gomorra; no mesmo Deus que pôs o pecado em um rol taxativo e estipulou seus limites, prometendo o fogo do inferno aos pobres diferentes; no mesmo Deus que tributava o céu com sacrifícios e vidas alheias; no mesmo Deus que garante o paraíso depois do ataque terrorista.
Amar o próximo, repartir o pão, destruir o templo, convocar multidões, contestar o regime político autoritário vigente na época – Jesus era de esquerda. Portanto, Deus também seria uma ameaça comunista, e das boas. Poupem-nos da hipocrisia, tirem Deus do meio.
A maior ironia ficou para o final: “Liberdade”. Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Quando escolheram esse título só podiam estar zombando. Há 50 anos as pessoas foram às ruas pedir intervenção militar em nome da Liberdade, e o que se viu depois? Ausência de liberdade de expressão; ausência de liberdade democrática; e por aí vai, ad infinitum (novamente).
Marchemos contra o monopólio das palavras. Marchemos contra a misoginia e a intolerância. Minha família não é a mesma que a sua e meu Deus te mandaria para o inferno. Minha liberdade não tem patente.


CRENDEUSPAI!


PÃO E VINHO

Não sei de onde veio a expressão “comer como um padre”, mas ela sempre fez muito sentido para mim. Isso porque meu pai foi seminarista, e cresci ouvindo suas histórias do seminário, quando dizia que lá havia dois tipos de refeições – a dos padres e a dos seminaristas. A refeição dos padres era um banquete, todo farto, com o melhor pão e vinho do mercado. Os seminaristas, pobres aspirantes, comiam arroz com pedra e pão seco.
Acontece que em Pouso Alegre tinha um padre que fazia jus à expressão. Monsenhor Benedito comia bem. Cada dia uma refeição diferente, cada noite uma casa nova. Os fieis o esperavam com a mesa posta e o desejo de ter sua casa benzida: feijoada no Tio Márcio, frango na Tia Goretti, lasanha na Tia Carlina. Fosse o que fosse a comida, Monsenhor Benedito deitava o cabelo. O padre era mesmo bom de garfo.
Na minha cabeça de moleque, ele era o padre que construía igrejas e atrasava missas.
Cresci vendo a igreja ser construída; lembro-me da voz grave do Monsenhor Benedito convocando os fieis a prestigiarem a festa da paróquia. Com a quermesse a igreja crescia – e o padre comia. A festa de São José Operário sempre teve os melhores quitutes da cidade.
O sermão da missa das dez era um pesadelo para a minha cabeça de criança. Benedito levava uma hora para falar depois do evangelho; sua prática não era nada prática. A missa das dez era a coisa mais chata da minha infância.
Não satisfeita em me levar à missa, minha mãe também me fazia confessar. E eu nunca entendi o ato de confissão. “Garanto que esse padre tem mais pecados do que eu!”, pensava. Um dia, comecei a me confessar com o Monsenhor Benedito. Ele dizia que eu não tinha pecados; conhecia meus pais, e a comida da família era muito boa. Dispensava-me sempre com um sinal da cruz e um tapinha nas costas. A confissão levava dois minutos.
Um dia passei a me divertir com isso e, na certeza de não vir penitências, comecei a inventar pecados. “Matei um cachorro”, “fugi da escola”, “bati no meu irmão”, “roubei uma loja”. Mas, para o Monsenhor Benedito, de nada adiantava. O padre fingia não ouvir. Perguntava como estavam meus pais e depois me mandava embora. A sua indiferença começou a me irritar. Ou eu mentia muito mal, ou ele queria minha amizade só para jantar na minha casa.
Decidi pregar uma peça nele. Iria inventar um pecado tão grave, mas tão grave, que seria impossível passar despercebido. Queria ver a cara dele quando eu contasse a peripécia, e quantas ave-marias eu teria que rezar para tomar tento na vida.
Numa sexta-feira, cheguei ao confessionário:
– Sabe, padre. Meu aniversário tá chegando… É amanhã, dia 13 de março. E, sabe, padre… eu não vejo muito sentido na vida. Acho que vou me matar.
Ele simplesmente fez um sinal da cruz, deu um sorriso, e mandou um abraço para a minha família. Recebi seu tapinha nas costas e fui embora, frustrado. Eu não tinha conseguido.
Na tarde do sábado, dia do meu aniversário, fizemos um churrasco. Os amigos e convidados comeram, conversaram e depois foram embora. Caiu a noite e já não havia mais ninguém em casa.
De repente, soou o sinal da campainha: era o Monsenhor Benedito. O padre tinha vindo para a janta, e nós nos desculpamos, dizendo que não havia mais nada para comer, pois o churrasco tinha sido à tarde, e àquela hora não tinha um espeto sequer na churrasqueira.
O padre não disse, mas eu sei: ele tinha vindo a minha casa para conferir se eu estava vivo. Comemorei a peça em segredo. Monsenhor Benedito acreditara na minha mentira. Sorri para ele, e ele sorriu de volta – como cúmplice.

Pedimos uma pizza. Ele comeu como um padre.