RebloggingG88: Amores polímeros

Confesso que prefiro filmes antigos. Faz alguns anos que assisti pela primeira vez ao Grand Prix. Este filme é bastante curioso, se passa no ambiente das corridas de Fórmula 1, nos circuitos europeus mais bonitos da época como Mônaco e Spa Francorchamps. Quer saber se lembro da história? Não, não me lembro de nada sobre o enredo, nem sobre as personagens.
 
Além disso a paixão por atrizes nos palcos e telas é algo comum, digamos que é o capítulo primeiro do livro dos amores platônicos, se não for a introdução. Não diga você que isto é mentira, caro leitor, que você nunca se apaixonou pela Alinne Moraes, pela Grazi Massafera. Ainda que seja uma paixão momentânea e efêmera. É natural, não se envergonhe.

Os amores platônicos seguem assim, sem desgaste do tempo, sem animosidades. Continuo amando Françoise Hardy, num tempo imemorial para mim, um amor conjugado nos tempos passados, enquanto ela era essa linda jovem da foto. E digo mais, se tudo continuar como vai, creio que nosso amor durará ainda muitos anos.

Mas, se os amores platônicos residem nesse Olimpo tão distante e perfeito, nas bandas de cá os amores são práticos, são feitos de carne e osso, feitos de rusgas e rugas, de olhares de cumplicidade e de repreensão, às vezes. Sei que você não é tolo de acreditar em contos de fadas, aliás, não acreditar em contos de fadas já é um lugar comum. Mas vale este outro alerta: não acredite em amores de comédia romântica, que tendem inevitavelmente para um final feliz, como um vórtice veloz e certo, cujo gargalo traga tudo que chegar até ele, independente do tamanho das órbitas.

Os amores práticos têm esses muitos defeitos que, na verdade, talvez não sejam defeitos, mas meros reflexos das imperfeições dos amantes, dos envolvidos. 

Nem por isso os amores práticos são menos curiosos. O tema é interessante – batido, que seja -, sobretudo quando se trata dos inícios, dos começos, das primeiras manifestações e reações. É claro, o melhor do amor é o seu começo. Os primeiros começos, os primeiros inícios, nos dizeres dos Paralamas: “o segundo que antecede o beijo”. Esses são os momentos mais interessantes, com suas dúvidas e incertezas, com as borboletas no estômago, e com os primeiros sinais das primeiras reciprocidades. 

Antes disso, porém, algumas convenções bestas ainda insistem. Antes das esperadas reciprocidades vêm as tradicionais indiferenças. Essa é uma daquelas coisas difíceis de entender: os jogos de indiferença que duas pessoas que se querem têm que fazer. Já ouvi isso sob vários nomes: dar um gelo, não demonstrar nada, ficar na sua… Enfim, várias formas de dizer: seja indiferente, sim, você quer, mas faça de conta que não.

Françoise Hardy

O que ela vai pensar? Que você é grudento, atirado, chato, impulsivo… Então seja prudente, controle-se. Faça de conta que não há nada. Jogos de indiferença, fingir que não quer o que quer. Você entende essa dança?

Este pedaço do amor fica artificial, não parece feito de carne e de osso, de paixões e imperfeições. Não é o amor prático, mas um amor de plástico, um amor artificial, o amor polímero. Até os amores mais platônicos são mais reais que ele.

Por que você não manda aquela mensagem? Por que não a convida para um café? Por que não diz claramente em palavras o que as suas ações bestas já dizem e muito? Deveria… Mas não é… Sei como é… Estas pequenas coragens ficam só para depois do terceiro chope? Acho que acabo de perder minha mais remota chance de conquistar Françoise Hardy, acabo de declarar publicamente minha paixão, devia ter me feito de indiferente…

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Deixo, para os mais curiosos, o trailer do Grand Prix, filme de 1966. Recomendo para quem gosta de Fórmula 1, pra quem gosta dos carros e do ronco dos motores, o som e a fotografia do filme valorizam muito isso. Até mesmo no trailer dá para perceber os sons das trocas de marcha (em 1966 eram feitas em alavanca manual).
Só deixo um alerta, cuidado para não se apaixonarem por Françoise Hardy…
 
 
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