A Guerra Fria Tupiniquim

Hoje, o G88 traz um texto que recebemos do nosso leitor  Lucas Silva, obrigado Lucas!

A GUERRA FRIA TUPINIQUIM

O Brasil entrou na Guerra Fria 70 anos atrasado. Hoje em dia, não se analisam as coisas de maneira ampla e criteriosa como elas deveriam ser avaliadas. Não, hoje no Brasil, ou você é isso ou é aquilo. Não há meio-termo, não há em cima do muro, não há uma terceira opção. Tudo hoje se parece muito com a estranha dicotomia gerada pela Guerra Fria. Ou EUA ou URSS. Ou vermelho ou azul. Ou “capitalismo” ou “comunismo”. Ou Keynes ou Marx. Ou Lalas ou Yashin. Ou JFK ou Stalin. Ou isso ou aquilo.

Hoje em dia, para cada tópico que surge por aí, ascendem sempre duas visões distintas e antagônicas que prevalecem, ganham força e se perpetuam. Afinal, somos pró-impeachment ou unidos contra o golpe. Somos coxinhas ou petralhas. Somos de esquerda ou de direita. Não existem mais comunistas, libertários, nacionalistas, keynesianos, liberais, socialistas, anarquistas, minarquistas, conservadores ou anarcocapitalistas. Não. Ou você é pró-Dilma ou você é contra-Dilma. E fora Cunha!

Somos contra a redução da maioridade penal, contra o aborto, a favor da liberalização da maconha e contra Tite na seleção. Eu apoio. Eu sou contra. Sou a favor. Eu não apoio. Eu sou coxinha. Eu sou petralha. Eu canto “Dilma coração valente” aos sete ventos e eu canto “Fora Dilma, Fora PT” para o mundo ouvir. E nada mais. E nada menos.

Essa dicotomia preenche todos os setores da sociedade tupiniquim. Eis que um dia, ouço minha mãe discutindo ao telefone: “goiabada é melhor que paçoca”. “Goiabada é mais suave, paçoca é mais farelenta”. “Goiabada mais consolidada, paçoca ainda não chegou nesse nível”. E exclamava exaltações à goiabada. E execrava a oleaginosa paçoquinha. E a mais bizarra conversa de telefone que eu já ouvi na minha vida se dicotofez-se. Mamãe ama paçoca, mas não importa. Ou é isso, ou aquilo.

Futebolisticamente, essa bipolarização sistemática se faz presente com estupefante naturalidade. Não é anormal ver um grupo de pessoas perguntando “Messi ou Cristiano” uma para a outra. “Bale ou Neymar”. “Alaba ou Marcelo”. “Alves ou Lahm”. “Ramos ou Godin”. “Özil ou Pogba”. Nem os jovens Rashford, do Manchester United, e Iheanacho, do rival municipal Manchester City escapam da comparação. Falam-se muito de clubes também. “Barça ou Real”. “Juventus ou Milan”. “Ajax ou Bayern”. “Southampton ou Portsmouth”. Tudo em dois polos. Em terras tupiniquins, os ainda precoces atacantes, mesmo ambos não terem nem pisado em campo direito, existe o frenesi de compará-los e formar bipolaridades. Nem a maior invenção do homem escapa da dicotomia.

Somos Batman ou Superman. Somos #teamcap ou #teamiron. Somos Marvel ou DC. Somos Star Wars ou Star Trek. Somos Breaking Bad ou Game of Thrones. Somos A Grande Família ou Zorra Total. Somos Globo ou SBT. Somos Galvão Bueno ou Cléber Machado. Somo Senna ou Schumacher. Somos football ou futebol. Pepsi ou Coca. Ruffles ou Doritos. E tudo se resume a isso.

Daqui a pouco viraremos a Guerra Fria de verdade. Discutiremos sobre Stalin, JFK, Che Guevara, Fidel, Mao, Reagan, Nixon e tantos outros. Falaremos da hipocrisia do “capitalismo americano”, da contradição do “socialismo cubano”, da efemeridade do militarismo, da utopia dos “paz e amor”. E não nos calaremos. E não pararemos. E tudo é isso. É aquilo. É tudo. É nada. E nos bipolarizamos. E fora Dilma. E fora Temer.

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