Fossa: um direito fundamental

Às vezes é normal estar, por dentro, fora de área. Este não é um texto para ajudar. Se quiser ler, a responsabilidade é sua.
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Precisamos conversar sobre coxinhas

Tenho percebido, com tristeza e certa resignação, que alguns setores sociais têm se utilizado da coxinha com finalidades escusas, pretendendo expor ao escárnio uma opinião política oposta e ridicularizar tanto a opinião divergente quanto esta iguaria da culinária mais simples e popular.

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O rosto escondido – I

Existe um rosto que se esconde, um rosto que fala, que pensa, que articula, que cria, que compõe, que contorce, que distorce, que reinterpreta sutilmente os acontecimentos com sua lógica peculiar. Sua expressão, sua leitura, sua releitura e sua ótica têm lá sua legitimidade. Só não consigo me conformar com sua ética, a ética do rosto escondido.

Lamentavelmente existem rostos escondidos à direita e à esquerda.

Sou da geração que não esconde seu rosto, sou da geração que oferece as faces ao tapa, por saber que pode falar, pode expressar e pode, também, mudar de ideia. Sou da geração que não experimentou censura alguma, da geração que não aprendeu a temer as consequências da liberdade de expressão, por ter aprendido que a consequência da liberdade de expressão não é outra senão um debate franco e aberto.

Causa-me incômodo ver os rostos que se escondem à direita, e mais ainda os rostos que se escondem à esquerda. O rosto que se esconde não quer dar “a cara a tapa”, não quer debate, quer ter uma voz de narrador onisciente. 

A ideia deste texto surgiu já há algum tempo, e a vontade se renova em cada ocasião em que abro as páginas da revista mais lida do país, ou que ligo a TV no canal mais visto do país. Não porque esse canal e essa revista expressem opiniões contra ou a favor de determinados partidos. Não, definitivamente este texto não é sobre partidos. Mas porque me incomoda que o enorme poder desses meios de comunicação seja usado para deixar mensagens sutis, quase subliminares, altamente elitistas, de direita, digo, de extrema direita.

A vontade se renova, ainda, quando recebo um panfletinho tosco, sem assinatura alguma, sem argumento algum, sem opinião nenhuma, apenas vendendo uma imagem ruim desse ou daquele sujeito, dessa ou daquela figura. 

Os rostos nas fotos não me incomodam. É o rosto escondido que me incomoda, não a matéria assinada, com a foto do autor, mas os mínimos detalhes, as sutis diferenças de tratamento, as mensagens escritas apenas nas entrelinhas. 

Um dia desses vi uma foto e compartilhei no meu mural do facebook, dizia: “O pior cego é aquele que acredita na Veja”. Pois é. O problema é que muitas, muitas pessoas leem essa revista sem um olhar crítico, sem a capacidade de enxergar que não há imparcialidade alguma naquela linha editorial. Muitas pessoas se deixam levar por opiniões ideias de panfletinhos.  

Vou me explicar melhor:

Este texto é sobre não se deixar levar por argumentos falaciosos, argumentos de vozes que ecoam sem mostrar seu rosto, argumentos que não geram debate, mas só ideias prontas e, geralmente, mal fundamentadas. 

Preciso parar imediatamente de ler a revista Veja? Desligar a Globo? Não aceitar a Folha de São Paulo nem como embrulho na feira? Rejeitar o panfletinho? 

Não é isso. Não é por aí. O que precisamos é de uma visão crítica. Qual o porquê desta ou daquela notícia. Qual o porquê desse posicionamento? Qual o porquê de tanta sutileza nesse argumento?

Os governos federal, estadual e municipal atuais merecem críticas? Sim! Merecem muitas críticas. Mas eu, como leitor, como expectador e, principalmente, como eleitor, mereço argumentos claros, mereço um debate claro, mereço a chance de discutir e opinar, inclusive para poder mudar minhas opiniões quando estiverem erradas.

Nossa geração não merece argumentos rasos. Nós crescemos diante das telas, assistindo aos mesmos programas de TV. Mas atualmente as telas da nossa preferência são aquelas em que podemos interagir, em que podemos dar também a nossa opinião. Tenho certeza absoluta que você, leitor, prefere o youtube à Globo, prefere os blogs às colunas dos jornais, prefere opinar a assistir passivamente. 

Os argumentos para nos convencer têm que ser melhores. Não me venha com frases do tipo “o político tal é drogado”, ou “o político tal é analfabeto”. Isso não é bastante para me convencer de nada. Isso não é argumento, principalmente se a voz que fala esconde o seu rosto.

Há rostos escondidos à direita e à esquerda, amigo leitor. Cuidado com o som dessas vozes, cuidado com a fragilidade desses argumentos. 

MAPA DAS INSIGNIFICÂNCIAS DA VIDA

Dizia a notícia que um pai de família fora preso furtando bolachas para alimentar os filhos. E esse é o tipo de coisa que parece mentira, mas não é. Não só é verdade que ele foi preso, como também é verdade que o que ele fez não é crime – e não me refiro à moralidade de sua conduta, mas tão somente à juridicidade dela. Isso porque existe um princípio no Direito Penal que versa sobre as insignificâncias da vida. Ele diz que as lesões pequenas devem ser desconsideradas por ausência de tipicidade material. Em outras palavras, o policial deveria ter o bom senso de não prender um pai de família por furtar pacotes de bolacha, já que isso não faria nem cócegas nos bolsos do supermercado.
Na Bahia, um jovem foi preso após furtar três livros para estudo, indo parar no presídio de Mata Escura. É outro caso parecido, e que merece a mesma atenção. O Princípio da Insignificância deveria ser aplicado, liberando o pobre moleque, deixando que o varão tomasse seu rumo e enfiasse a cabeça nos estudos sem sentimento de culpa.
Para o Direito Penal, na teoria, tudo isso é insignificante.
Mas para mim, não. Eu discordo. Como classificar tais atos como insignificantes? Como ignorar crimes assim? Como deixar passar despercebida a nobreza dessas condutas? Ah, quem me dera se tivéssemos apenas crimes como esses! Que prazer eu teria em abrir o jornal pela manhã e me deparar apenas com pais que matam a fome dos filhos e jovens que roubam livros sem pensar nas consequências; são nobres humanos brasileiros, escravos da mesquinhez do nosso Poder de Polícia – que cospe, que bate, que mata.
A insignificância é irrisória, é pequena, é a migalha que damos aos pombos. Insignificante é o perdão depois da morte, é o sexo sem amor; insignificante é cerveja em velório, é rezar sem ter fé, é comemorar um gol sem vencer a partida; insignificante é a vida perto da guerra, a ninharia de uma esmola depois da missa das dez; insignificante é inverno na solidão (ou solidão no inverno); é cachaça sem torresmo, flores sem cartão.
Um jovem que furta livros, porém, é muito significante. Um pai de família que furta bolachas também. Imagino como seria se eles não tivessem sido pegos.
O jovem leitor chegaria em casa sem fôlego, de tanto correr. Tiraria o moletom escuro e abriria com cautela a mochila, retirando os três exemplares recém furtados. A mãe perguntaria onde ele estava, e o filho não mentiria – “Estava no shopping!”. Depois tomaria um banho, se perdoaria por não ter dinheiro e passaria a noite em claro lendo os primeiros capítulos da recente aquisição.
O pai herói, por sua vez, chegaria em casa com um sorriso humilde e cansado. Diria para seus dois filhos – “Papai tem uma surpresinha, uma lembrança, nada de mais!”. Os miúdos deitariam em seu colo e devorariam os três pacotes de bolacha recheada, que há tanto tempo não comiam por falta de dinheiro.
Crime é julgar sem ter bom senso; crime é ser mesquinho.

Amarremos nossa insignificância no poste.





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Outras insignificâncias – “O Brasil que condena por pacotes de bolacha e desinfetantes”

Maria Aparecida
Mandada para a cadeia por ter furtado um xampu e um condicionador em um supermercado. Perdeu um olho enquanto estava presa.
Sueli
Condenada pelo roubo de dois pacotes de bolacha e um queijo minas em uma loja.
Januário
Espancado por cinco seguranças, durante 20 minutos, no estacionamento de um hipermercado, pois acharam que o vigilante estava roubando o próprio automóvel.
Ademir
Assassinado por ter furtado coxinhas, pães de queijo e creme para cabelo de um supermercado. O pedreiro foi levado até um banheiro, agredido com chutes, socos e um rodo e deixado trancado, definhando. Morreu por hemorragia interna e traumatismos.

Guinada à ironia

i.ro.ni.a
sf (gr eironeía, pelo lat) 1 Ret Figura com que se diz o contrário do que as palavras significam. 2 Dito irônico. 3Ar ou gesto irônico. 4 Zombaria insultuosa; sarcasmo.
Pois foi que um jornal de Pouso Alegre republicou em seu editorial uma crônica do Antônio Prata. O texto satirizava o discurso da direita brasileira, traduzido pelo comportamento político predominantemente agressivo da classe média, fundamentado no ódio e no egoísmo social.
Ocorre que esse jornal municipal (de direita) não percebeu a ironia, e republicou a crônica ratificando os termos da mesma. Deu parabéns ao autor pelos exemplos citados no texto, e assinou em baixo expressões como “crioléu”, “bichas” e “feministas rançosas”. O que deveria soar como absurdo foi aplaudido.
Há vários comentários a se fazer.
Primeiro, o fato destes jornalistas não dominarem a interpretação de texto – um recurso básico ensinado na escola, que faz com que a mensagem chegue limpa ao interlocutor, partindo do pressuposto de que o senso crítico e o raciocínio lógico estão plenamente inseridos.
Eles não compreenderam a ironia da qual foram alvos. O erro de interpretação aconteceu também com outros leitores (vide comentários na página do texto). Não foram poucos os que saudaram Antônio Prata, imaginando que o cronista tinha mesmo todas aquelas ideias violentas com relação às minorias.
Não estamos falando de metáforas, surrealismos ou poemas simbolistas. Falamos de interpretar ironia, do sarcasmo que já está claro, dado o exagero de que se valeu o autor.
A direita deu risada, mas não entendeu que a piada era com ela.
O assunto nos sugere vários debates. Poderíamos nos aprofundar, refletir sobre alguns profissionais incapacitados na área do Jornalismo, estabelecer prós e contras sobre a exigência de curso superior na área, etc. Mas penso que o tema nos convoca a uma discussão mais séria, como o discurso político violento, com grande aderência em redes sociais e amplamente favorecido pela mídia nacional.
A imprensa brasileira se encontra em mãos destras (em poucas mãos, vale dizer). No Congresso, a maior fatia do bolo está na boca dos ruralistas, dos empresários e da bancada religiosa. É injusto afirmar que as minorias estão tomando conta do cenário nacional (fato ironicamente colocado pela crônica de Antônio Prata e aplaudido por aqueles que não compreenderam a mensagem).
As críticas ao capitalismo social e ao assistencialismo como meio primário de governo se mostram cada vez mais superficiais. Políticas afirmativas não são necessariamente populistas. Reservo o tema para uma próxima crônica, mais histórica.
A garantia democrática é tão necessária quanto beber 2 litros de água por dia.
Não é mais tolerável que o discurso reacionário ganhe aderência. Presenciamos um fascismo diário em escala industrial. A violência política da mídia banalizou os Direitos Humanos; fez com o que o principal objeto de desejo da democracia se tornasse algo obsoleto aos olhos da classe média, como se a dignidade humana fosse apenas um pedido caprichoso das minorias.
A repetição reiterada destes termos parece ter sido usada de maneira negativamente estratégica, de modo que as expressões atinentes às garantias fundamentais se tornaram cansativas, inconvenientes de ouvir, como um chato ringtone despertando do celular.

No debate político nacional, a dignidade humana virou clichê, a ironia perdeu a graça, e o ódio virou argumento.

https://www.facebook.com/vitortegom/photos_stream

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Aqui, a crônica do Antônio Prata:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2013/11/1366185-guinada-a-direita.shtml