Lições de Canarinho

No princípio era uma codorna. Chegara em meu quintal atrás de alpistes e farelos de milho. O pássaro rechonchudo, pesado para seu pequeno porte, passeava dentro de casa feito um cão domesticado.

Com a intenção de criar livre um canário-da-terra, meu pai despejou tratos de passarinho por todo o quintal. O fato era esse: em todas as casas vizinhas havia um canário cantando. Só na nossa que não. Movido pela cobiça, e com uma obstinação invejável, papai fez de tudo para chamar um canarinho.

Veio uma codorna.

E alguns pardais.

Aceitamos de bom grado. A codorna se tornou querida por todos. A maneira misteriosa com que ela havia chegado dava um tom de misticismo à presença dela no seio familiar. Ela parecia pesada demais para voar. Como viera até nós? Não importava. Era uma codorna e isso nos bastava. Valia muito, perambulando amistosa e alegre por nossos calcanhares.

Um dia a codorna foi embora. Meu pai entristeceu. Contou para os amigos do ocorrido: “Eu queria um canarinho, mas veio outro passarinho. Depois esse passarinho foi embora e eu fiquei sozinho.”

A vida é uma sequência infindável de expectativas frustradas – mas nem toda frustração pode ser ruim. Se esperamos um canarinho e a vida não nos dá, não quer dizer que não possamos encontrar a felicidade no desajeito de uma codorna. Contudo, também não podemos dizer que essa felicidade será para sempre – repare que a codorna fugiu.

A felicidade tem a duração de um feriado.

Meu pai tem amigos complacentes. Um deles, sensibilizado com o sumiço do pássaro, decidiu fazer uma surpresa: deu a ele um canarinho-da-terra. O presente surtiu efeito. O canto do canário assobiava no peito de meu pai, que respirava um pouco mais enternecido com a presença de outra ave na família. Quando alguém chegava em casa, ele logo ia apresentar a visita ao canarinho. “Olha como ele canta!” “É mais bonito que curió!”

Ia de tempo em tempo ver o bicho, que residia numa gaiola ao lado da piscina.

Em uma dessas idas, meu pai teve uma surpresa. Nada havia na gaiola, senão um chumaço de penas sobre uma poça de sangue. O canarinho tinha morrido.

Em cima do telhado, imponente como um guerreiro, havia um gavião. Carregava na boca um punhado de penas louras da presa. Permanecia incólume, como se posasse para uma foto.

A tristeza foi geral. Meu pai ficou abatido como um vira-lata, um pardal a quem ninguém dá atenção.

Canario-Da-Terra

Se uma coisa nos chega pela força de alguém, talvez não sejamos o destino certo para essa coisa. Se alguém te dá um canarinho por pena, não quer dizer que você saiba cuidar desse canarinho. Ele vai machucar na sua mão. Vai sofrer. Não poderá voar, se salvar, pois está preso.

Luto geral.

Coitado de papai, que deixou de ouvir o canto, o assobio doce que alegrava sua vida. Havia perdido um canarinho para um gavião. Nada – absolutamente nada – o consolava. Ele desacreditava na sua própria competência de criador, de quem dá trato, de quem cuida. Aí reside a maior impotência do homem.

Alguém precisava ajuda-lo – e eu decidi tentar. Comprei um canarinho-do-reino pra ele. Quando se deparou com o bicho, sua primeira reação foi o susto, depois a indiferença, a inconformidade de lidar novamente com uma possível perda. Eu amenizei, dizendo que o pássaro era meu.

Para dar vínculo e segurança, batizei o bicho. Chamei-o de Nelson – em homenagem a Nelson Cavaquinho, que cantava bem e casmurro.

Hoje de manhã senti um ímpeto terrível. Quis desfazer-me de Nelson. Não mata-lo, simplesmente soltá-lo. Queria deixar com que voasse livre de minhas amarras, que sentisse a liberdade nas penas. Mas então percebi: Nelson fora criado em cativeiro, com o trato no bico. Solto, talvez não durasse um dia. Não se sabe quantos gaviões habitam as janelas e tramelas desse mundo. Gavião é coisa de muito perigo.

Para a nossa segurança, muitas vezes nos amarramos a prisões. A liberdade é diplomática, não hesita em fazer acordos.

A vida é uma gaiola.

Agora escrevo esta crônica e Nelson assobia ao meu lado, sambando com o biquinho.

Meu pai se alegra por isso.

Enquanto a mim, vou aprendendo com os pássaros.

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O TALO DO ATALA E O JOELHO DE PORCO

Tem uma coisa que vem me chamando atenção ultimamente: programa de culinária.

Não aqueles tradicionais, em que a apresentadora prepara uma receita comum, em meio a comentários íntimos com telespectadores e piadas com ingredientes. Não quero falar da Ana Maria Braga ou da Vovó Palmirinha.

O que despertou meu interesse é aquele formato novo de gastronomia televisiva, misturando Reality Show estadunidense e novela mexicana. Masterchef, Hell’s Kitchen, Kitchen Nightmares, e tantos outros que seguem a mesma receita.

Em tais atrações, os participantes precisam cozinhar pratos da alta gastronomia, conjugando textura, apresentação e criatividade perante o crivo de jurados pouco amigáveis.

Além de me dar fome, percebi que esses programas despertaram um interesse geral de pessoas que antes não se importavam com a cozinha. A gastronomia recebe um novo olhar, está em alta.

Acho que houve até uma globalização de sabores, e isso é ótimo. Hoje o brasileiro come japonês (perdão pelo trocadilho) e arrota burrito. As pessoas modernas adoram um Food Truck na balada, um japa no Happy Hour, uma paleta mexicana na sobremesa.

Nessa onda de efervescência gastronômica, um termo merece destaque: Gourmet.

No dicionário, a palavra corresponde àquela pessoa que aprecia boas iguarias.

Eu acho isso um saco. O sujeito pensa tanto pra comer… que acaba pensando errado.

E se você acrescenta a palavra ao final da comida, o preço do prato aumenta. É quase mágica. Faça o teste.

Hoje, perambulando pelo Facebook, me deparei com um prato assinado (que coisa estranha empregar o verbo “assinar” nesse sentido) pelo Alex Atala, considerado o melhor Chef da América Latina. Tratava-se de: talo de agrião, mostarda em grão, flor de coentro e flutuação – dispostos em um prato grande.

Desperta interesse?

Desperta interesse?

Longe de questionar a aptidão do Chef Atala para apresentações, mas o conjunto equivalia a uma trave perdida no meio do Maracanã. Parecia um grilo esquecido na louça da pia.

Se o sujeito vai ao restaurante para matar a fome, qual a sua decepção ao ver um prato desse?

“Ah, mas é só a entrada!”, você me responde.

Talvez esteja certo. Eu não sei nada de cozinha.

Só sei que nas terças-feiras, com as peças restantes do frango que sobrou da segunda, a cozinheira do Bar do Luizinho oferece um virado incrível, que é quase tão bom quanto a carne de porco feita na lata, que você só encontra lá no Restaurante do Zé Arlindo. Sei também que todas as noites a Dona Teresa cozinha uma costela com mandioca e faz a melhor Vaca Atolada de Minas Gerais. Sei que, quando se tem fome, uma boa pedida é o Restaurante do Tiãozinho, lá no bairro Cervo, que vai bem com o tropeiro do Bar do Tiago. Pra quem gosta de tomar uma cerveja na calçada, eu indico a parmegiana do Uyrapuru, de sabor quase comparável ao churrasquinho de picanha do Clube do Espeto. Mas de uma coisa eu sei mais: no Mercado Municipal, no box da esquina direita, tem o Bar do Tibúrcio. Vá de chinelos, no sábado de manhã, sem hora pra voltar. Peça uma cerveja no balcão – que virá gelada, no copo americano. Depois peça o joelho de porco. Não deguste, coma. Acrescente um pouco de farinha ao caldo. Molho de pimenta. Esprema limão cravo (tem que ser cravo, do alaranjado).

Pronto. Não é Gourmet, nem é essa a intenção.

Mas, tenho certeza, faz um talo de agrião parecer uma piada de mau gosto.

Foto: Mário Poeta

Foto: Mário Poeta

INALA-A-DOR

Fui dar em Extrema graças a uma palestra. Na ocasião, era eu quem falaria – sobre a vida, a leitura e a escrita. Contei meus causos, relembrei minhas histórias. Ao final do evento, um menino perguntou quais eram as minhas motivações para escrever. Nasci canhoto, corintiano e asmático – respondi. Eles riram. Tomei o caminho de casa.

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UM MOMENTO FELIZ

Estava com a minha namorada quando vimos o jornal que noticiava o reconhecimento da união homoafetiva nos EUA. Entreolhamo-nos com a mesma cumplicidade e pronunciamos a mesma frase:
– Vai ser mais fácil dar aulas de redação agora!
Era uma frase feliz. Era um momento feliz. Era um certo alívio.

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SOBRE PERGUNTAS E TATUAGENS

“Não haverá tempo para reparar no desenho que um dia tatuei na pele com tanto carinho, e que, enrugado, ficará velho ao meu lado, como ficam sábias e velhas as páginas de um livro aberto.”

Fiz uma tatuagem. Nada de mais. Coisa boba. Queria passar pela experiência, desde há certo tempo. Queria ver se a dor era tão insuportável quanto pregam. Queria marcar na pele algo que considero importante pra mim. Não exigi o aval de ninguém. Fiz de uma hora pra outra, do nada. Apenas tive o cuidado de pedir aos amigos tatuados que me indicassem o melhor tatuador. Fui naquele indicado pela maioria.

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