Enfrente

Quando eu era criança eu tinha medo de monstros e seres fantásticos. Havia algo de sincero quando eu dizia que não acreditava neles. Isso porque eu sempre fui um pouquinho racional e podia ver o quão improvável era aquilo tudo. Mas mesmo assim, me assustava com os desenhos da madeira do meu guarda-roupa porque eles pareciam olhos e isso é potencialmente perturbador para uma criança que precisa dormir, em um quarto quase escuro, sem a segurança da mãe ou de um herói. Aqueles pequenos estalos dos eletrodomésticos me deixaram apreensiva também. Era de enlouquecer qualquer mente infantil enfrentar a casa escura e silenciosa, entrecortada por aqueles barulhos.

Já um pouquinho maior, eu perdi o sono algumas vezes por seres como esses. Lembro-me de não dormir por duas semanas em decorrência da imagem da Samara saindo pela TV. Mas eram outros os meus medos frequentes, então. E, olhando friamente, talvez eles tenham sido tão idiotas quanto os medos dos seres fantásticos. Meus monstros, fantasiados de pequenas brigas com as pessoas queridas, notas menores do que meus desejos e fiascos na paquera eram daqueles caprichados, com sete cabeças e muito mais terror, àquela época. Hoje já não aterrorizam tanto assim.

Apesar disso, sei que a coragem enfrentar aqueles pequenos medos me fez ser menos covarde para enfrentar os medos de agora. Às vezes, quando eu entrava em pânico, sem saber o que fazer, corria para o porto seguro no quarto ao lado e pedia socorro para minha mãe, da mesma forma como eu fazia quando meus problemas eram os olhos que eu enxergava no guarda-roupa. Foram muitos conselhos e infinitas broncas, que geralmente acabavam no imperativo: enfrente! Em frente…

Muitas vezes, quando eu estava longe de casa, longe do meu porto seguro, longe das pessoas que permanecem comigo, eu sentia medo. AH, como eu sentia medo! A solidão amedronta, muitas vezes. O desconhecido amedronta. O incerto amedronta. Fico pensando que talvez o medo seja justamente isso: o não saber. Quando criança eu não sabia se aqueles monstros existiam (eu podia jurar que não, caso me perguntassem, mas eu tinha minhas dúvidas). Quando adolescente eu não sabia como lidar com os meus monstros, era inábil demais para resolver pequenos problemas do cotidiano. Solidão, saudade, incerteza, tudo isso é monstro que a gente tem que aprender a matar.

O problema é que o medo não acaba quando a gente fica adulta. E essa é uma parte que não me contaram dessa história. Ou talvez tenham tentado me contar e eu tampei os ouvidos. Afinal, eu precisava daquela certeza de que alguém me ajudaria a dar jeito no medo. Só que o futuro, na maioria das vezes, é o não saber. E, por isso, o medo é uma constante.

As escolhas são suficientes? O esforço é suficiente? O trabalho é suficiente? O amor é suficiente? O salário é suficiente? O tempo é suficiente? Ou ainda, será que eu sei o que eu estou fazendo? Eu estou acertando ou errando, na maior parte do tempo?

No fundo, a verdade é que eu achava que quando chegasse a esse ponto da vida eu teria mais respostas do que perguntas. Mas as perguntas têm o dom de se reproduzir por brotamento. De uma, nascem várias. E dessas várias, outras, incontáveis.

Às vezes a minha única vontade é a de sentar e chorar. Chorar honesta e profundamente. Chorar pela mensagem não respondida, pelo bom dia atravessado, pela dificuldade do dia a dia. Chorar pelos desencontros, pelas chateações, pelas frustrações. Chorar pelo medo de não saber o que fazer. Chorar pelas provas que eu tenho que corrigir, pelos textos do doutorado para ler, pelos capítulos da tese que não se escrevem sozinhos, pela unha que eu não tenho tempo de pintar, pelas escolhas que eu tenho que fazer, pelo sono que não vem… E por não saber onde é que tudo isso vai me levar.

Minha vontade é chorar, por tudo isso e por nada. E então, abrir os braços e dizer “pronto, não sei mais o que fazer, eu desisto”. Mas nessas horas eu me lembro das broncas da minha mãe e das inúmeras vezes em que ela me ordenou: enfrente. Em frente, então.

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