Último texto

Então me olhou. Eu via de longe os fiordes de Oslo, mas estava distante demais e abstraído demais para reparar no céu alaranjado, daqueles gases vulcânicos. Isso era há muito. Minhas roupas eram do final do XIX. Então me olhou. Seus olhos tinham o ressentimento das décadas que viriam, ainda. Ela me perguntou quem eu era, e a resposta – tive que dizê-la, que ali não havia artifício nenhum de omissão – “Eu não sei”. Minha cabeça doía profundamente por estar ali, e naquele momento. Levei as mãos às têmporas em desespero.

Disse a ela que não escreveria mais. Ela duvidou e riu seu riso de canto dos lábios, eternamente irônica e amarga. Olhei no fundo dos seus olhos pretos e disse apenas o meu silêncio. Depois disso ela temeu, e sua feição mudou, é que uma tempestade viria. Além dos trovões, a erupção do Krakatoa tornaria a chuva venenosa, ácida, dilacerante.

Quando acordei, depois daquele sono perturbado, havia um fio de suor escorrendo da testa. É uma sesta contrariada essa que se dorme depois de almoçar sozinho. Aliás, almoçar sozinho já é algo que, para mim, faz muito pouco sentido.

Coloquei primeiro os pés no chão, e meu descuido foi não perceber que o esquerdo foi o primeiro. Em seguida me levantei da poltrona. Olhei pela janela e, daquela altura, conseguia ver em detalhes aquele pedaço da cidade, até as bordas do lago. Eram dias muito tristes. Acirrados os ânimos, as pessoas não conseguiam conversar. Não sabiam mais como usar ou entender orações coordenadas. Havia apenas comandos muito breves, palavras de ordem, frases curtas. E eu não compreendia mais. Aprisionei muito de mim num aposto e perdi a aposta.

Meu idioma estava extinto do mundo. As pessoas me eram profundamente desconhecidas, e eu estava exilado em minha pátria.

Fui me retirando do mundo. Primeiro pelas redes sociais. Curioso quando me perguntaram “você está há semanas sem facebook, perdeu todos os seus amigos?”. Não respondi, mas elaborei a resposta em pensamento, que não perdi amigo algum, apenas relembrei como são poucos e bons amigos. Sabia, também, que ainda me retiraria mais, com mais critério. Minha ausência seria atomizada, capilarizada, sempre imperceptível a todos, para que apenas eu a conhecesse.

Dessa mesma janela prosseguia, agora, contemplando minha ausência do mundo, quando tocou o telefone. A pergunta, agora, se refazia, e entrelaçava todos os elementos de um sono mal dormido, de um amor contrariado, de um remédio amargo, de um choro engolido: “Quem é você?”.

Eu não sei.

* * * * *

Este texto encerra minha participação no G88. Foram quase três anos de boas leituras por aqui. Agradeço ao Breno e a todos os outros que construíram esse blog. Foi muito proveitoso dividir este espaço com vocês!

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