Link

Meninão mimado

Uma das coisas que eu descobri nos últimos tempos foi que para ser homem não basta crescer ou envelhecer. Há, por aí, muito moleque de barba na cara e voz grossa. Muitos deles dirigem empresas e carros importados. Outros sabem de estratégias, preços e marcas. Mas não aprenderam a ser gente.

image

São apenas meninos grandes que não deixaram de ser mimados, que querem impor sua opinião a qualquer custo. E para isso não medem palavras e nem o tom de voz. Ofendem, humilham, maltratam. E ainda por cima se acham os donos da razão.

Sentem-se no direito de julgar argumentos e razões alheias, mesmo quando não têm nada a acrescentar. E, principalmente, não sabem perder: na falta de bons argumentos, falam cada vez mais alto, colocam-se de pé e erguem os punhos, ameaçadores. Descem o nível da conversa, desfiam palavrões e injúrias. Não sobra conteúdo para o debate.

E isso acontece em grande parte porque esses meninos – e muitas meninas também – foram à escola por mera convenção social: dormiram nas aulas de História e caçoaram das lições de Filosofia. Aprenderam a somar, mas não sabem dar valor. Aprenderam a ler, mas não sabem compreender. Aprenderam a conjugar verbos, mas só usam a primeira pessoa do singular. Nunca tiveram vontade ou curiosidade de tentar entender o mundo, de provar outras culturas, de conhecer pessoas novas.

E mesmo assim sentem-se fonte inesgotável de sabedoria, aquela sabedoria baseada exclusivamente em si mesmos, em suas convicções, em suas experiências pessoais, em conversas doutrinadoras que passaram do avô para o pai e assim por diante e, claro, em suas profundas leituras de Facebook. Tudo tão superficial que quando alguém tenta mergulhar, racha a cabeça no fundo, pois muitos deles não conhecem nem a si próprios e por isso não podem partilhar-se com ninguém, portanto, não podem amar.

Não conhecem nada além de seu próprio umbigo, em grande parte das vezes e repetem feito papagaios uma série de afirmações impensadas. Aprisionam-se na senzala do preconceito e, feito monstro de noite do terror, sacodem desesperadamente os braços a procura de companhia em sua cegueira. Quem passar pela frente corre o risco de ser atingido, principalmente aqueles que forem diferentes. Cultura africana? “Credo”! Feminismo? “Eca”. Liberdade de expressão? “Só se for a minha”. Respeito? “Só se for para mim”.

Nessas e outras que entra a redação do Enem. Sou pesquisadora e estou sempre pensando e lendo sobre tal do feminismo para a minha tese. Sou professora de redação e todo ano discuto sobre esse tema com meus alunos. Confesso que já estava descrente e que foi uma alegria sem tamanho perceber que um assunto tão importante estava sendo pensado obrigatoriamente por sete milhões de pessoas e, em consequência disso, por quase todo o Brasil. Infelizmente, não demorei a perceber que sempre há chances de se encontrar um meninão mimado por aí.

Exemplos disso estão pipocando pelas redes sociais. Em um deles, um rapaz afirmava que as mulheres deveriam se resignar, pois quem chegou à Lua foi o homem, quem inventou a lâmpada e o avião foram homens e assim por diante. Mal sabe ele que em grande parte desses feitos que ele citou, a mulher foi silenciada e roubada de sua participação, justamente pelo machismo, o que se procura combater. Essas formas de exclusão são também violência e é justamente nesse ponto que as pessoas precisam aprender a pensar, a aceitar o diferente e a compreender que não é sempre que sua opinião terá adeptos (ou fundamento).

image

Outro caso foi o do doutor que se vangloriou de mentir para “pegar” mulher, então porque um homem não mentiria para entrar na faculdade? Pensamento muito maduro, podemos perceber. E muito humilde também. Infelizmente para ele – e para outros que pensam assim -, nem tudo nessa vida pode ser fingido. E infelizmente, para mim, muitas pessoas como essas insistem em fechar a cabeça e abrir a boca. O pior é que não para por aí. O show de horrores está por todos os lados, coisificando gente, sufocando, machucando.

Mais um exemplo de pessoa que não tem o que dizer, mas não segura a boca, ou pior, os dedos no teclado? Taís Araújo, atacada com palavras racistas em sua própria página pessoal. Mais um? Maria Júlia Coutinho, a Maju do Jornal Nacional, que sofreu as mesmas injúrias de Taís. São tantas Taíses e Majus por esse mundo, que nem sei como dimensionar. Todas elas (e eles) sofrendo por um mecanismo baixo para tentar diminuir mulheres competentes, elegantes e lindas. Um pensamento colonial, que transforma gente em cor de pele. Que reduz toda a complexidade do ser humano a uma ou outra característica física, biológica ou social: mulher, negro, deficiente, gay.

image

Talvez esse seja apenas o retrato do desespero dos privilegiados assistindo a seu castelo de cartas ruir lentamente. E é com muita esperança que eu escrevo esse texto. Minha interpretação – contaminada, sim, da minha vontade – me faz pensar que finalmente o coro dos diferentes tem ganhado força. E que finalmente há espaço para falar. E torço veementemente para que falemos, cada vez mais alto e cada vez mais juntos. Que haja força e que haja gente!

Gente que gosta de gente; gente que aceita gente; gente que cresce com gente; gente que é diferente, mas que quer estar junto com gente. E, principalmente, gente que sabe que nem tudo vai bem, mas que pode ficar melhor. Melhor se cada um tiver o seu espaço, melhor se cada um tiver a sua chance, melhor se cada um tiver a condição de ser alguém sem precisar ser apresentado por meio das conjunções adversativas (“é mulher, MAS”, “é negro, PORÉM”, “é gay, CONTUDO”, “é deficiente, NO ENTANTO”).

Claro que o meninão mimado adoraria bater a porta do quarto, colocar a música preferida no último volume e se jogar na cama, a espera que os problemas se resolvessem. Claro que os mimadinhos adultos adorariam impor suas crenças, suas preferências e suas vontades, porque em suas cabeças o mundo seria muito melhor assim, porque eles estariam felizes – como estiveram até agora há pouco.  Eles adorariam continuar a categorizar as pessoas, como têm feito sempre: a mulher pra pegar e a mulher pra casar, homem pra ser dono, homem pra ser empregado, quem merece ser corrigido – “viado” –, quem merece ganhar mesada do papai, o favelado e o trabalhador, quem merece pena e quem merece confiança e assim por diante. Categorias bem definidas para não haver dúvidas. Um mundo lindo e cor-de… Não! Cor-de-rosa, não!

Termino esse texto unindo minha voz à de Fernando Pessoa – em seu heterônimo Álvaro de Campos – para dizer do meu jeito: “Arre, estou farto de semideuses!/ Onde é que há gente no mundo?” Farta de semideuses, de poderosos mimados, de grandes homens de mentes pequenas, e porque eu sei que há por aí muito homem e muita mulher pra ser gente, peço às gentes que estão por aí: que peguemos essas chances e que não as deixemos passar. Que saibamos resistir às birras e aos rompantes de ódio daqueles que ainda não aprenderam a discordar. E que possamos deixar para as próximas gerações um mundinho mais aconchegante e gostoso de se viver.

💕

Anúncios

Um comentário sobre “Meninão mimado

  1. Isabela disse:

    Mariana, que texto lindo!
    Nas poucas aulas suas que tive, deu pra ver que gente como você, que é esse tipo de gente “diferente”, fazem MUITA diferença nas salas de aula. Só com vocês, pra esses meninões e, infelizmente, meninas cheios e cheias de mimo conseguirem alcançar sua consciência e ver que o mundo tem que ser (e há de ser!) um lugar bem mais colorido.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s