O Estatuto das Rugas

Além das músicas, além da presença de muitos amigos reunidos e toda a alegria que isso proporciona, o show do Los Hermanos trouxe, para mim, uma imagem muito clara. De alguma forma estou dando voz a ideias de Lacan neste texto. Vi apenas o que eu temo, vi apenas o que me incomoda, minha percepção, ali, era absolutamente seletiva. O que mais me chamou atenção naquele show foi a impiedade do tempo, ou em outras palavras mais claras: o quanto os caras da banda estão velhos!

Talvez eu que só consigo fazer o tipo de fã para o Ítalo Calvino e o Garcia Marquez – que já passaram dessa para outra – não tenha esse hábito sadio e elevado de acompanhar a vida dos famosos pela internet e nas revistas de sala de espera. Se fosse assim mais cuidadoso já teria noção dos óculos do Marcelo Camelo, das barbas de Deodoro da Fonseca que o Amarante ostenta imponentemente. Mas… Não!

Estive eu mesmo muito ocupado com meus próprios pequenos problemas para seguir os pequenos problemas alheios. E nisso às vezes eu mesmo me pego de frente pro espelho, com a barba por fazer, com os cabelos brancos crescendo em proporção geométrica, com a idade de três décadas se aproximando como uma ameaça, ou como um aviso – meu caro Ricardo, as coisas não estão indo como você, um dia, imaginou que iriam.

Não estou reclamando de nada. Só estou assustado com a velocidade do tempo. Talvez seja cedo demais até para essas observações e para essas angústias. Mas repare, eu sou de uma geração apressada mesmo. Desculpe. Tenho visto que a minha ansiedade é meio contagiosa, envenenava pessoas de quem eu só queria o sorriso. Tenho que calar mesmo essas queixas. Esse é só o começo do fim da nossa vida…

Acostumados que estamos com um sistema decimal, queremos fazer balanços da vida em idades redondas. Sei que deveria esperar, pelo menos, os 50 para, tal como um steppenwolf, fazer esse balanço e tentar encontrar nisso tudo algum sentido. Mas não. Idealizei demais que aos 30 todos os meus problemas de carreira estariam resolvidos, entre outros problemas também. Pois é, não deu… Deixa assim como está, sereno. Pois é de Deus tudo aquilo que não se pode ver e ao amanhã a gente não diz e ao coração que teima em bater…

Mas, na verdade, sempre que construímos algo como uma tese – algo que é novo como ideia – temos que nos perguntar: e se fosse verdade? E se hoje eu realmente sentisse essa segurança de que em três anos tudo estaria definido e definitivo? Creio que, de alguma forma muito torta e desconexa, toda vez que a estabilidade se aproxima eu a afasto. Andar para frente é um exercício de desequilíbrio mesmo, de instabilidade, de tirar os pés do estável do chão, ainda que um de cada vez, ainda que o risco seja calculado, é sempre risco, e tem sempre o gosto daquelas balas da venda perto do colégio: meio amargas, meio azedas, meio doces. Pois é, até onde o destino não previu… Sem mais, atrás vou até onde eu conseguir…

 

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