Teoria Geral da Saudade – II

Há quase dois anos postei um texto aqui, com esse mesmo título: Teoria Geral da Saudade. Gostei mais do título do que o texto propriamente. Impossível teorizar sobre algo como a saudade. Este texto, menos pretensioso – talvez – não avança na compreensão do tema. Não traz maior contribuição que o primeiro. Se você ler e isso não mudar a sua vida, o problema é todo seu.

 

Para Drummond, os cacos da vida formam, quando colados, uma estranha e inútil xícara. De fato, tudo que se parte, quase invariavelmente, não pode ser refeito sem que sobrem arestas. Drummond disse isso num poeminha muito menor que esta explicação. Sem rimas, sequer. Simples de tudo. Creio que este seja um dos poucos poemas que eu saiba de cor. Uma pena. Não é dos mais bonitos para serem, eventualmente, recitados de forma arrebatadora ou surpreendente.

Saber este poeminha só me serve a mim. Serve para que eu me lembre que o passado não volta e, se volta, vem cheio de graves imperfeições. Estranho falar em volta do passado sendo o tempo uma dimensão linear. Deixe que eu me explique: a confiança perdida não se restaura, as decepções não se desvanecem, os erros não são realmente esquecidos, a palavra dada não se pode aspirar de volta para a boca, não se pode encher de volta os pulmões com o sopro da sua pronúncia, não se pode apagá-la da memória do ouvinte, não se pode conformar a sua inconsequência, não se pode varrer do mundo a sua consequência. O leite derramado, enfim, não se chora.

Me ocorreu isto um dia desses. Com o tempo, aparentemente, nos tornamos um pouco menos desastrados. Mas, no sentido mais literal, derrubei um copo de leite sobre a mesa nesse dia. Estava cheio, e o conteúdo escorreu até o chão. No inevitável, pronunciei meu protesto. Caralho. Não serviu aquilo para nada. Chorar ou praguejar, reclamar ou me conformar… o que fosse. O leite já se espalhara.

Nessa marcha do tempo, no entanto, não vamos escapando impunes. Ficam caixas, envelopes, bolsos de jaquetas – imaginários ou reais. Nesses relicários vamos acumulando às cheias. São lembranças, às vezes como fotos, às vezes como gestos, entonações, frases soltas, conclusões. Às vezes têm cheiro, às vezes têm gosto de lágrimas, às vezes fazem que a boca se encha de saliva, pelo apetite ou pelo enjoo. Que seja.

Algo como isso.

Há essas sensações que fotografias não guardam. A matéria da memória é misteriosamente elástica. Faz com que o corpo reviva sensações, faz com que a mente reative impressões… A memória é a matéria prima da saudade.

Há alguns dias encontrei um desses relicários. Posso dizer que era um relicário moderno. Um cartão de memória com músicas que gravei em 2009. Ainda gosto de todas elas, e todas já eram velhas em 2009. Quando ouvi de novo Backwater dos Meat Puppets  percebi isso. A música é de 1994 – o melhor ano de todos os tempos – e a letra continua muito válida: Some things will never change. They stand there looking backwards half unconscious from the pain. They may seem rearranged, in the backwater swirling there is
something that’ll never change…

Creio que atualmente nem os integrantes do Meat Puppets se lembrem dessa música. Mas de fato, algumas coisas nunca vão mudar… Elas podem parecer reorganizadas, rearranjadas, mas no moinho das águas passadas algumas coisas nunca vão mudar.

De fato todas aquelas músicas me lembraram muitas coisas. De certa forma, as memórias que resistem são poucas. Confesso que tenho esquecido bastantes coisas. Mas as memórias que ficaram foram boas. As melhores, espero. Compartilhando dessa matéria, ou no giro do mesmo moinho das águas passadas, a saudade que resta é boa.

Existem algumas coisas que, passadas, entraram para aquela lista dos cacos da vida. Não formarão mais nada que sirva. Dessas coisas, desses relicários que acumulamos mesmo sem querer, é bom se ater às boas memórias e às boas saudades.

As cidades invisíveis só foram surpreendentes na primeira leitura, algumas amizades só existiam com o convívio, alguns amores só são felizes sem você, algumas pessoas só amadurecem pela dor, algumas pessoas se apegaram demais à solidão para amarem… Seja pelo inevitável da morte, seja pelo inevitável da vida, meu caro, algumas pessoas não voltam mais, algumas coisas não voltam mais, alguns lugares ficaram para trás.

Mas isso não tem que ser nenhuma grande tristeza. Se a memória é boa, às vezes a saudade é a alegria possível.

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As águas passadas, girando em torvelinho, vão levando essa memória, a imagem clara, vai virando miragem, à margem vê-se só o traço, opaco, incerto, como neblina, ainda que devagarinho.

 

 

 

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