Diálogo sobre a ausência

Ou sobre a presença.

ElliottErwitt

– Não era feliz. Você sabe, ela não dizia, mas você percebia isso.

– Você tem certeza?

– Absoluta. Ela não falava, mas você percebia. Acho que ela morreria se estivesse ontem do meu lado quando caiu um raio na casa ao lado.

Riem. 

– Não faz tanto tempo assim, mas já parece uma memória distante né?

– Pra mim sim, pelo menos na maior parte do tempo.

– Às vezes não?

– Esses dias foram diferentes. Mas isso estava demorando pra acontecer. Uma grande presença, ou uma presença prolongada, vira uma grande ausência depois. Sabe como é né?

– É aquela história dos contrários que eu te disse.

– Exato!

– Você só sente a ausência porque havia a presença. É verdade, mas nada além de uma filosofia bem barata. Quem sabe te rende um texto ainda.

– Não escrevo mais.

– Eu sei que você passa o tempo todo escrevendo, sua cabeça não funciona em pensamento, funciona em narrativa.

– Isso rende no máximo um diálogo. Mas é um diálogo cheio de palavras não ditas.

– De volta à minha filosofia de boteco: só são palavras ditas porque existem milhares de outras não ditas.

– Isso é ridículo. Não é nesse sentido. São palavras não ditas porque de alguma forma eu estou falando isso, ou vivendo isso sem pronunciar, sem dizer.

– Eu já sei de quem você está falando então.

– Não, não é isso.

– Ela é linda, cara.

– E só.

– Em que sentido? Só isso ou solidão?

– Num sei, ainda não parei pra pensar sobre ela.

– Então o quê?

– Ela tinha medo de trovão.

 

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