INALA-A-DOR

Fui dar em Extrema graças a uma palestra. Na ocasião, era eu quem falaria – sobre a vida, a leitura e a escrita. Contei meus causos, relembrei minhas histórias. Ao final do evento, um menino perguntou quais eram as minhas motivações para escrever. Nasci canhoto, corintiano e asmático – respondi. Eles riram. Tomei o caminho de casa.

Junho é frio. Não é novidade. O vento gelado me fez ligar o ar quente do carro, interrompido pelo primeiro pedágio da Fernão Dias. Quando abri o vidro, meu pescoço endureceu. Senti a brisa cristalizar meus movimentos. A moeda do troco tilintava em minha mão. Meu peito chiou.

Ser um asmático nunca foi motivo de orgulho. Na escola, sempre carregava a bombinha comigo. Não era um troféu, algo digno de exibição, mas seria injusto não mencionar que ela era um instrumento indispensável. Uma desculpa para quando não chegava em primeiro lugar na corrida ou na natação. “Eu sou asmático”, respondia, tirando a bombinha do bolso e soltando o ar, para depois tragar durante 10 segundos o jato-dose de sulfato de salbutamol.

Excluído das primeiras opções colegiais, tomei gosto pela literatura. O sentido das coisas depende muito do contexto em que elas se inserem. É improvável que um asmático se dê bem numa corrida de revezamento. Por outro lado, se damos a esse garoto um papel e uma caneta, ele encontrará seu habitat natural. O asmático, quando escritor, pode ser até charmoso.

A asma deixa o posto de defeito para se tornar qualidade. É dado um outro valor ao instante. É preciso pensar antes de falar, para não correr o risco de perder o oxigênio por pouca bobagem. O ar é pouco para a fala, mas tem espaço no papel.

Minhas frases são curtas pois é assim que eu respiro.

Viver não é questão de fôlego – mas do que você pode fazer sem ele.

Pois bem. Há quatro dias essa asma me persegue. Ontem fui bater no hospital, corri ao pronto-atendimento. Rotina para quem sofre do meu problema: uma dose de cortisol na veia e meia hora de inalação. Estaria novo, de pulmão reciclado.

O asmático é um inquilino do ar alheio.

O inalador é sua casa de aluguel.

Uma hora para ser atendido. Veio uma médica recém-formada, muito bem apresentada. Perguntou o que tinha me levado até ela. Por um momento, me senti no divã da minha analista.

– Bronquite crônica, alérgica. Dói o peito quando eu respiro. O corpo também anda dolorido, acho que é gripe.

– Abre a boca.

– AAH.

– Mais um pouco.

– AAAAAHHHH.

– É dor de garganta.

– Mas, doutora…

– Nimesulida e Amoxilina.

– Mas eu sou alérgico…

– Boa tarde. Melhoras.

Ela não me escutou. Não tomou meu pulso. Não ouviu a súplica do meu peito-sanfona, que chiava feito acordeom de Luiz Gonzaga. Ignorou minha dor no peito, bateu na cara da minha falta de ar. Saí de lá pior do que quando eu entrei.

A médica era mais fria que o ar de junho.

Se hoje eu pudesse revê-la, diria àquela pobre moça de jaleco branco que não aceitasse mais plantões aos domingos, que a frieza machuca o asmático mas faz muito pior a quem sente, e que um dia, lá no alto da minha infância, eu tive médicas que me curaram só pelo contato impetuoso de mãos quentes que não tinham medo do contato, que me preveniam cuidadosas o relar do estetoscópio do meu peito, e que beijavam minha testa encorajando-me a inalação, feito a última frase dessa crônica, pobre moça, que me faz perder o ar de tanta pena da sua alva má vontade de quem dá plantão de coração fechado.

Frans Hellens - Modigliani

Frans Hellens – Modigliani

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