Diálogo sobre formas

Quais seriam as formas desenhadas pela fumaça de um fósforo aceso em uma sala fechada? Provavelmente linhas suaves e curvas com a presença de espirais.
Agora imagine um móvel antigo de madeira entalhada. Como são os desenhos decorativos na madeira? Provavelmente curvas suaves e espirais.
Para contraste, como seria o desenho formado pelo rastro de um avião no céu? Qual a principal característica das formas de um automóvel moderno? 
Linhas, talvez curvadas, porém sobre tudo linhas.
O que distancia e aproxima essas imagens são dois elementos: tempo e velocidade. Enquanto as curvas fechadas com caracóis eram típicas dos móveis antigos e de muitas arquiteturas do passado o presente é marcado pelas linhas modernas. E o que explica essa diferença temporal de formas é justamente a velocidade, aquela que diferencia os espirais da fumaça de um fósforo sendo aceso em uma sala fechada e a o as linhas traçadas por um avião que corta o céu. O ar da sala fechada se move lentamente e desenha espirais, o avião passa rapidamente pelo ar e desenha linhas.
Da mesma forma as sociedade que desenharam caracóis, e as que hoje desenham linhas se movem em velocidades diferentes. 
A própria noção de beleza refletiu nossa velocidade, são linhas retas que vão desde prédios a cabelos. Cachos são repudiados até mesmo nos cabelos, já que é próprio do novo negar o velho.
Pois existe alguma crueldade na linha, que devemos ficar atentos. As linhas de produção são um bom exemplo. São muitas linhas de produção, paralelas, produzindo produtos semelhantes que duram pouco, custam muito para os muitos que ganham pouco. 
Das simplificações perigosas da linha a que mais preocupa é a da vida das pessoas. Não que isso seja crítica a uma vida simples, mas na verdade esta é uma crítica à ignorância da complexidade de cada um. A velocidade com que as vidas modernas passam, ignora sonhos e aspirações, ignora desenvolvimentos enquanto privilegiaria acertos. Não podemos nos dar o luxo de não sermos flechas retas voando rápido em direção ao alvo.
Não é a intenção advogar a favor dos espirais, esses têm lá os seus perigos. Basta lembrar de tempos em que a cultura no mundo era uma sala fechada com pouco movimento de ar, que acabou por aprisionar ideias nas mentes e favorecer comportamentos doentios e cruéis.
Esse debate é mais um desses infinitos yin yang com os quais nos nos deparamos. Eu em particular sempre me vejo nesses impasses naturais. 
Como sempre, vou adotar a saída de permitir que os dois existam, linhas e linhas enroladas, rolos enovelados ou rolos que foram esticados. E um brinde a essa coexistência é a séria fotográfica de Oliver Valsecchi, na qual modelos cobertos de cinzas se erguem formando traços e espirais com a névoa. Talvez seja assim a existência humana, na prática uma mistura dessas formas contraditórias.



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